Em meio à densa floresta amazônica, uma lenda antiga conta a história de um povo que descobriu a bebida mais sagrada dos índios: o guaraná. Segundo a tradição, os guaranás tinham o poder de enxergar o futuro e proteger seus territórios de invasores.

No coração da densa floresta amazônica, onde o sol mal consegue tocar o chão devido à copa das árvores gigantescas, vivia a tribo dos Maués. Entre eles, habitava um casal conhecido por sua bondade e retidão, mas que carregava a profunda tristeza de não ter filhos. Após muitas preces a Tupã, o grande deus do bem, o desejo do casal foi atendido: nasceu um menino.

O curumim era diferente de todos. Ele cresceu cercado por uma aura de pura luz, carisma e bondade. Seus olhos eram grandes, expressivos e brilhantes, capazes de trazer paz até mesmo aos animais mais ferozes da selva. Ele era o orgulho e a alegria de toda a tribo, amado por sua generosidade e por sua conexão mística com a natureza. A terra dos Maués prosperava, e a fartura parecia seguir os passos daquela criança abençoada.

A Sombra da Inveja

No entanto, tamanha pureza despertou a ira e a inveja de Jurupari, o deus da escuridão e do mal. Jurupari não suportava a felicidade que o menino irradiava e decidiu que destruiria aquela luz. Ele esperou pacientemente pela oportunidade perfeita, vigiando os passos do pequeno indígena.

Certo dia, o menino afastou-se um pouco mais da aldeia para colher frutas na floresta, distraído pelo canto dos pássaros. Percebendo que o curumim estava sozinho, Jurupari transformou-se em uma serpente venenosa e sorrateira, camuflando-se entre os galhos e folhas de uma árvore frutífera.

Quando a criança estendeu a mãozinha para alcançar um fruto maduro, a serpente desferiu um bote rápido e fatal. O veneno correu instantaneamente, e o menino caiu sem vida sobre o tapete de folhas mortas da floresta.

O Pranto e a Promessa de Tupã

Um trovão ensurdecedor ecoou pelos céus da Amazônia, anunciando a tragédia. Quando os guerreiros encontraram o corpo do curumim, o desespero tomou conta da tribo. O choro de sua mãe foi tão doloroso que comoveu a própria floresta.

Enquanto a mãe pranteava sobre o corpo do filho, um raio reluzente cortou o céu, iluminando a clareira. Era a voz de Tupã, que enviou uma mensagem clara ao coração da mãe desolada: ela deveria enterrar os olhos da criança ali mesmo, em solo sagrado da floresta, e regá-los com suas lágrimas todos os dias. Daquela dor nasceria uma nova vida, uma dádiva que alimentaria e daria força ao seu povo para sempre.

A mãe obedeceu. Com as mãos trêmulas, sepultou os olhos brilhantes do filho na terra fértil e, durante semanas, chorou sobre o local.

O Nascimento do Guaraná

Não demorou muito para que a terra respondesse ao milagre. No local exato onde os olhos foram plantados, brotou uma planta majestosa e forte, uma trepadeira de galhos vigorosos que escalava as árvores em busca do sol.

Quando a planta frutificou, a tribo inteira assistiu, maravilhada, ao cumprimento da promessa de Tupã. Os frutos eram de um vermelho vivo e, ao amadurecerem, sua casca se abria para revelar uma polpa branca que envolvia uma semente preta e brilhante.

Era a cópia exata dos olhos vivos do menino da tribo, olhando fixamente para eles.

Os Maués batizaram a planta de Guaraná, que significa "grande videira dos olhos". A fruta tornou-se um símbolo sagrado de energia, vitalidade e saúde, trazendo a força do curumim para dentro de cada guerreiro e garantindo que, mesmo partido, os olhos da criança continuariam para sempre vigiando, protegendo e alimentando o seu povo.